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"A matéria era muito clara: os nordestinos estavam sendo discriminados. Isso me revoltou profundamente, pois jamais me dei conta disso. Acabei de chegar do nordeste, onde fui como sempre muito bem recebido. Todo povo nordestino gosta do paulista. "São Paulo dá emprego para os nordestinos. Aqui o nordestino não passa fome. Lá todos são recebidos de braços abertos". Essa é a imagem que eles tem do paulista. Mero engano. São Paulo cresceu graças a contribuição desse povo hospitaleiro, generoso, que trabalhou arduamente para que São Paulo fosse hoje uma das grandes metrópoles da América Latina. Porém, São Paulo não precisa mais do migrante nordestino. Ele não teve tempo de estudar, de melhorar; não foi para a faculdade, não há lugar para ele e sua família nessa cidade. "A escola que ele construiu seu filho não poderá estudar. A igreja que ele construiu nem ele pode entrar para rezar"... Pensando na matéria e na real situação do nordestino e nas pessoas que vivem perambulando pela cidade, senti uma revolta, uma injustiça e falta de amor com o próximo, não consegui esquecer o assunto. O povo nordestino que tanto fez por São Paulo, é agora renegado. As necessidades básicas: trabalho, moradia e saúde não fazem parte do seu dia-a-dia, imaginem lazer, diversão, posto de informação, orientação... Seria um sonho distante? Não existe em São Paulo um local para que o nordestino sinta-se "em casa novamente". Ele deveria ser homenageado por toda contribuição que deu a São Paulo. Não dizem que São Paulo é a maior cidade nordestina? Como pode São Paulo deixar seus filhos "adotivos" tão desamparados? É como uma mãe que, ao não querer seus filhos, joga-os na lata do lixo; deixa-os embaixo da ponte; dentro de uma caixa; com fome e frio. Teria que fazer algo. Teria que mostrar ao meu povo paulista que o nordestino é nosso irmão e como tal daríamos as mãos. Uma vez morando em São Paulo, a sua nova terra por escolha ou por necessidade, ele teria aqui um pedacinho da terra que ele deixou para trás: o seu nordeste. Um Centro Social e de Lazer, uma Rádio... Essa seria a minha contribuição aos irmãos nordestinos. E assim criei a Rádio Atual e o CTN - Centro de Tradições Nordestinas; a princípio para o povo do norte e nordeste, hoje recebemos pessoas de todos os lugares independente de raça, cor ou classe social. Fundado em 1992, focado no público nordestino e sua Cultura, o CTN tem efetivado diversos projetos e ações sociais ao longo destes anos. Uma agência de fomento para os Estados do Norte e Nordeste, na Capital Paulista."
José de Abreu
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